Mostrando postagens com marcador Almeida Garrett. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Almeida Garrett. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Almeida Garrett, "Seus olhos"


Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder;
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Almeida Garrett, "Este inferno de amar ..."


Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

quinta-feira, 7 de março de 2013

Almeida Garrett, "Barca Bela"


Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
     Que é tão bela,
     Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
     Colhe a vela,
     Oh pescador!

Deita o lanço* com cautela,
Que a sereia canta bela...
     Mas cautela,
     Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
     Só de vê-la,
     Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
     Foge dela
     Oh pescador!

* Lanço - Porção de peixes que se apanha de uma só vez, na rede.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Almeida Garrett, "Não te amo"

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.