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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Emílio Moura, "Adolescência"


O que havia nas horas que passavam
e ardia, ardia, no ar, imensamente;
o que havia (era tanto!) e já formava
um ser que se buscava e se não via,

era um mas, ou um talvez, era a incerteza
do que, sendo, não sendo, se furtava
à vista que, no entanto, a si se dava
o que, essência de sonho, já floria.

Eram germes de mitos que nasciam,
o amor sorrindo, absurdo, à eternidade
de um momento, não mais, talvez nem isso.

Era a voz das distâncias sem limites,
a alma boiando, fluída, sobre o mundo,
era o medo da morte, sempre a morte.




quarta-feira, 1 de março de 2017

Emílio Moura













"O impossível momento"

Ah, ser contraditório,
dividido,
disperso.
Os pedaços de ti deixados, à distância,
se os buscamos no tempo, já são outros,
pois o que somos turvo se debruça
naquilo a que aspiramos,
e refaz o que fomos.
Como tê-los, intactos,
se, em nós, a todo instante,
se colorem de novo?

Que tecido se forma,
que alma vária,
desse amanhã, desse ontem, deste agora?
Libertarmo-nos, um dia, do que fomos e do que seremos!
Cada coisa em seu lugar;
no horizonte, o horizonte,
no passado, o passado,
nós, em nós.

domingo, 11 de outubro de 2015

Emílio Moura, "Súplica"


                                     Por que chamais: Senhor, Senhor... e
                                                       não fazeis o que eu digo?

                                                                             Lucas 6,46

Os inquietos, os loucos, os que ainda não Te descobriram, e os que
                                                                [ nada compreendem,
os que pararam, e os que jamais tentaram a grande jornada,
todos eles, Senhor, estão comigo neste momento.

Comigo estão todos os que perderam a grande partida.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram,
e os que não souberam buscar-Te.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram,
e os que não souberam buscar-Te.
Comigo estão os que não Te amam, nem Te compreendem,
os que Te negam, porque são felizes,
e os que Te negam, porque são infelizes.

Senhor, todos eles estão, agora, em minha insônia e em minha desolação,
         [como a presença da morte está na máscara dos que nada esperam.

Mata-os em mim, Senhor.

domingo, 12 de abril de 2015

Emílio Moura, "Três tempos"


Futuro:
Desassossego no escuro.
Medo.

Presente:
Revoada de nada,
simplesmente.

E tu, passado:
que fizeste deste
coração frustrado?

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Emílio Moura, "A fábrica do poeta"


Fabrico uma esperança
como quem apaga
algo sujo no muro
e ali, rápido, escreve
Futuro.

Fabrico uma pureza
tão menina,
tão cristal e tão fonte
que, de repente,
é meu todo o horizonte.

Fabrico uma alegria
que é de ver as coisas
como se só agora
é que nascesse
a aurora.

Fabrico uma certeza
exata
para cada instante.
A vida não está atrás,
mas adiante.

sábado, 3 de agosto de 2013

Emílio Moura, "Versos encontrados em um velho caderno"


Ninguém chorou quando a estrela
cadente
foi arrancada, bruscamente,
do céu que era dela.

Nem um ah! de pena,
quando a mão raivosa
do vento
arrancou a rosa.

Como querias
que algo, ainda agora, estremecesse
por tuas mãos vazias?

sábado, 20 de julho de 2013

Emílio Moura, "Canção"


Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.