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quinta-feira, 21 de julho de 2011
Eugenio Montale
"Imitação do trovão"
Todo mundo, parece,
imita um modelo
sem o saber, empresa descabida.
Mas o pior ocorre com quem pensa
ver o seu por diante como uma estátua.
Não imitai o mármore, senhores. Se não podeis
conter-vos, modelai-vos do pó,
dos cabelos do vento, do raspar
das cigarras, do inverossímel
ribombar do trovão, no céu sereno.
Modelai-vos, digo, até do nada
se a ilusão tendes ainda de poder
roçar sequer a cópia daquela plenitude
de que estais vazios.
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
terça-feira, 31 de maio de 2011
Eugenio Montale, "Repenso o teu sorriso ..."
                                                                                   a K.
Repenso o teu sorriso e é para mim como uma água límpida
retida por acaso entre as pedras de um rio,
exíguo espelho onde contemplas uma hera e seus corimbos;
e tudo sob o abraço de um branco céu tranquilo.
Esta é a minha lembrança; não sei dizer, faz muito tempo,
se de teu rosto surge livre uma alma ingênua,
ou se em verdade és dos errantes que o mal do mundo exaure
e o sofrimento carregam como um talismã.
Mas posso dizer-te isto, que teu rosto recordado
afoga a mágoa inconstante numa onda de calma,
e que tua figura se insinua em minha memória nevoenta
imaculada como a copa de uma jovem palmeira ...
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
Repenso o teu sorriso e é para mim como uma água límpida
retida por acaso entre as pedras de um rio,
exíguo espelho onde contemplas uma hera e seus corimbos;
e tudo sob o abraço de um branco céu tranquilo.
Esta é a minha lembrança; não sei dizer, faz muito tempo,
se de teu rosto surge livre uma alma ingênua,
ou se em verdade és dos errantes que o mal do mundo exaure
e o sofrimento carregam como um talismã.
Mas posso dizer-te isto, que teu rosto recordado
afoga a mágoa inconstante numa onda de calma,
e que tua figura se insinua em minha memória nevoenta
imaculada como a copa de uma jovem palmeira ...
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Eugenio Montale

"O que de mim soubeste ..."
O que de mim soubeste
não foi mais que a aparência,
a túnica que reveste
nossa humana aventura.
E talvez além do pano
o azul tranquilo estivesse;
tapava o claro céu
um simples sigilo.
Ou era de fato a estapafúrdia
mudança de minha vida,
o abrir-se de uma terra
incendiada que jamais verei.
Restou assim esta casca
minha real substância;
o fogo que não se amortece
para mim chamou-se: ignorância.
Se divisas uma sombra, não é
sombra - mas eu próprio.
Pudesse arrancá-la de mim
e te ofereceria de presente.
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
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